Monday, September 29, 2008

É fatal como o destino...


Para quem trabalha todo o dia e estuda à noite, as compras são quase sempre feitas ao fim de semana. É fatal como o destino, sábado é dia de hipermercado. Seja Verão, Outono ou Inverno, lá tem de ser. É que eu tenho o péssimo vício de comer, logo tenho de comprar a comida como todos. Essas visitas semanais ao grande hiper, são sempre repletas de incomodo. Refilando sempre. Mas como os outros mortais, lá me vou arrastando pelo consumismo minimo.

Embora nesse dia, o sábado, não vista o traje próprio para frequentar a festa pseudo-consumista ( fato de treino de marca, ou talvez não), lá estou eu no meio daquela gente toda, que faz daquilo o passeio semanal. Dantes iamos a museus, ao cinema, ao teatro, etc. Agora vamos todos para o hipermercado. E dias há, que parece que todos resolveram fazer uma autêntica “visita de estudo”, ao que fica na localidade onde moro.

Mas tudo isto seria de tal modo aborrecido que nem me daria ao trabalho de escrever se não tivesse tido uma experiência algo surreal no dito cujo.

Num belo dia de Verão, como se uma inspiração algo poética me invadisse resolvi comprar um melão. Rima com Verão. Ora, isto nada tem de invulgar. Aparentemente.

Dirigi-me ao local onde descansavam os melões. Com olhar de especialista, foquei o alvo e após experientes manobras, pego no eleito pronto a ser metido no saco. Quando, eis que de repente, uma voz aguda grita: ” É meu, é meu!!”. Ignorei.

Mas a voz, desesperada aproximava-se. Continuando e acrescentando: ” É meu, esse melão é meu.” E velozmente agarra-o, no mesmo instante deixo-o ir. O olhar da voz aguda, era ainda mais agudo quando ferozmente pousou no meu.

Em redor, todos riam. Pensei será para algum daqueles miseráveis programas televisivos? Mas não era. E o melão era simplesmente igual aos restantes, que se amontoavam quietos. Com alguma perplexidade, ponderei não comprar nenhum melão. Pensei talvez cerejas. Mas temi pela vida. Comprar fruta poderia ser perigoso.

Nessa semana, mantive distância de todo o ser pertencente ao Reino Plantae.

o que será?

Thursday, September 25, 2008

O polvo do povo...


Receita rápida

SIM à liberdade e à igualdade.

Assunto: No dia 10 de Outubro, SIM à liberdade e à igualdade.

No próximo dia 10 de Outubro, a Assembleia da República será chamada a votar projectos que estabelecem finalmente a igualdade no acesso ao casamento.

Esta é uma questão de direitos fundamentais, é uma questão de cidadania, é uma questão que determina a qualidade da nossa democracia. Trata-se de acabar com a humilhação de muitas mulheres e muitos homens que são ainda discriminadas/
os na própria lei por causa da sua orientação sexual. Trata-se de afirmar finalmente que gays e lésbicas não são cidadãos e cidadãs de segunda.

A Assembleia da República terá finalmente a oportunidade de afirmar o seu empenho nesta luta pela igualdade e pela liberdade - e a oportunidade de contribuir de forma particularmente simples para a felicidade de muitas pessoas.

O fim da exclusão de gays e lésbicas no acesso ao casamento consegue-se com uma pequena alteração no texto de uma lei, que não implica custos nem afecta a liberdade de outras pessoas. Porém, será um enorme passo no sentido da igualdade e contra a discriminação. E como demonstraram as discussões sobre o voto para as mulheres ou sobre o fim do apartheid racista na África do Sul, o preconceito que existe na sociedade não pode nunca justificar a negação de direitos fundamentais. Pelo contrário, votar contra a igualdade é legitimar e encorajar a discriminação.

Esta votação representa por isso uma enorme responsabilidade, pelas implicações que terá no reforço ou na recusa do preconceito.

Porque recuso a discriminação na lei portuguesa e porque esta é a oportunidade de repor a justiça e cumprir o princípio constitucional da igualdade, seguirei com atenção esta votação - e apelo ao voto favorável de todos os membros deste Grupo Parlamentar e à defesa intransigente da igualdade no próximo dia 10 de Outubro.



Associação ILGA PORTUGAL
Email: ilga-portugal@ilga.org
http://www.ilga-portugal.pt/

um anjo...

«[...] A razão por que eu não lhe tenho escrito? E é você que mo pergunta, você que se inclui entre os sábios? Pode em adivinhar que sou feliz, e mesmo … Em duas palavras., conheci alguém que tocou o meu coração. Eu. . . eu não sei o que diga …
Não é fácil contar-lhe, metodicamente, as circunstâncias que me fizeram conhecer a mais adorável das criaturas. Sinto-me contente, feliz; serei, portanto, um mau narrador. [...]»

in OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER. Johann Wolgang Goethe

Wednesday, September 24, 2008

A cultura da revolta

Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver. Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos. Nem interessados estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em Portugal.
Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores. E as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também, dores físicas.
Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz – os que lêem. As televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.
Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: 'Que se passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi aparada ou cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida nacional e que de tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o Soares.'
Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia. Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto nestes números. Dir-se-á que não há relação de causa e efeito. Há, claro que há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.
Prepara-se (preparam os 'socialistas modernos' de Sócrates) a privatização de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o primeiro-ministro, naquela despudorada 'entrevista' à SIC, declama que está a defender o SNS! O desemprego atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz exactamente o contrário. A mentira constitui, hoje, um desporto particularmente requintado. É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.
Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se.
Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas, poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é agir. O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo. Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não querem.
A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade. Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha. Não se resolve este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista. Um socialista a sério jamais procedia daquele modo. E há soluções adequadas. O acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.
Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.



O ranço Salazarista por Baptista Bastos

Sunday, September 21, 2008

é do canudo...

«[...] um estado totalitário verdadeiramente eficiente será aquele em que o todo-poderoso comité executivo dos chefes políticos e o seu exército de directores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão [...] vastos inquéritos instituídos pelo governo sobre aquilo a que os Homens políticos e os Homens de ciência que nele participarão chamarão o problema da felicidade.
Noutros termos: o problema que consiste em fazer amar aos indivíduos a sua servidão»

in O Admirável Mundo Novo. Aldous Huxley